26/03/2025

Apreensões

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“Apreensões” 
Apenas Você e Eu — Capítulo III 
Fairy Tail (フェアリーテイル

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Uma lágrima solitária escorreu de seus cílios, estilhaçando-se contra o papel. A tinta ainda fresca absorveu a gota com avidez, manchando a última frase escrita. A caligrafia antes tão nítida começou a desbotar, as letras se rendendo ao borrão úmido até se tornarem apenas um vestígio disforme, um eco indecifrável do que um dia foi uma confissão. 

O “Eu gosto de você” desapareceu, engolido pelo papel como um segredo que nunca deveria ter sido dito. E, no entanto, mesmo ilegível, ainda estava ali — não mais uma frase, mas uma cicatriz gravada entre as fibras da página.

Lucy recuou como se tivesse sido pega em flagrante, os dedos soltando a caneta às pressas. Sentiu um calor inquietante subir-lhe pelo rosto, seguido de um arrepio que percorreu sua espinha. Seu coração, antes tranquilo, agora martelava ansioso no peito, uma reação desproporcional ao simples ato de escrever.

Com brutalidade secou os olhos, tentando dissipar a névoa de emoções que a envolvia. Só então assimilando o peso da cena que acabara de transpor para o papel.

— O quê...?

A pergunta ficou suspensa no ar, sem destinatário. Seus olhos correram pelo texto, absorvendo cada linha com um misto de incredulidade e desconforto. Como aquilo tinha acontecido? Como deixara que suas palavras escorressem para algo tão… ridículo?

Era só uma história. Um borrão de ficção que nada tinha a ver com a realidade. Não era um reflexo de nada. Não era um desejo escondido, não era uma confissão disfarçada. Era apenas… apenas um exercício de escrita.

Sim. 

Ela precisava acreditar nisso. 

Apoiou as costas na cadeira, forçando uma risada breve e vazia. Estava indo longe demais. Desde quando sua imaginação tinha se tornado tão traiçoeira?

Seus dedos pairaram sobre o amontoado de escritos, hesitantes, antes de se fecharem em punhos. Apagar tudo? Rasgar as páginas? Não. Isso só daria mais poder ao que não deveria ter importância.

No final das contas, decidiu ignorar toda aquela baboseira. Não havia a menor possibilidade de que algo além da amizade existisse entre ela e Natsu. Eram apenas amigos. Melhores amigos. O tipo de amizade que não permitia longas ausências, que fazia com que a falta do outro se tornasse quase palpável — mas era só isso. Apenas amizade. Uma amizade bonita, sincera, genuína. Sim, era isso. Apenas isso.

E convenhamos, quando é que Natsu Dragneel se tornara o arquétipo de príncipe? O Natsu que ela conhecia não era um galã de novelas, cheio de charme e frases ensaiadas. Pelo contrário, ele era bruto, impulsivo e completamente alheio a qualquer coisa minimamente relacionada ao amor.

Certa vez, durante uma conversa com os rapazes da guilda, chegou ao cúmulo de questionar por que as pessoas se casavam, classificando o matrimônio como algo desnecessário e garantindo que jamais se sujeitaria a tal coisa. O Devil Slayer do gelo, sempre pronto para contrariá-lo, surpreendentemente concordou em alto e bom som, sem perceber o estrago que causava. Bastou um instante para que uma pobre garota de cabelos azuis começasse a soluçar pelos cantos, lamentando entre prantos que o “Gray-sama era um idiota desalmado!” O caos se instaurou de imediato, e o moreno, sem entender o motivo da súbita tempestade de lágrimas, só percebeu a gravidade da situação quando se viu frente a frente com uma Erza e Mirajane furiosas, exigindo satisfações.

Sim, aquela era a realidade. Uma dura e decepcionante realidade.

Para Juvia, não para Lucy! Não é como se tivesse ficado frustrada ou até mesmo triste quando Natsu falou aquilo. Óbvio que não! Era um problema dele, e aquilo não tinha nada a ver consigo.

Afinal, Lucy gostava de outro tipo de caras. Homens mais sofisticados, talvez. Natsu estava muito, muito longe de ser seu estilo! Mesmo que seu sorriso fosse tão lindo quanto o sol nascendo no horizonte. Mesmo que aquele cabelo, no tom exato de flor de cerejeira, fosse uma gracinha — especialmente quando caía em desordem sobre a testa. Mesmo que seu físico fosse… razoavelmente impressionante. Mesmo que suas idiotices sempre a fizessem rir. Mesmo que confiasse nele como em ninguém mais. Mesmo que a maneira como ele se preocupava com ela fosse especial de um jeito que nenhuma palavra conseguiria expressar…

Nada disso importava. Porque, no fim das contas, ela não estava apaixonada por Natsu Dragneel! E ponto final.

— Sim, você só teve um surto psicótico, Lucy. Apenas isso! — murmurou para si mesma, a voz ligeiramente trêmula, como se repetir aquelas palavras pudesse torná-las verdade.

— Falando sozinha, Lucy? — soou uma voz masculina, rouca e inconfundível.

O susto fez seu coração dar um salto, e um arrepio gelado percorreu-lhe a espinha. Com um movimento hesitante, virou o rosto em direção à janela.

E lá estava ele — a personificação de Adônis, recortado contra a luz dourada do fim de tarde, suado, com os cabelos róseos desgrenhados e um brilho travesso nos olhos. O peito subia e descia no ritmo acelerado de alguém que acabara de correr, e o colete grudado ao torso deixava entrever cada contorno de sua musculatura esculpida, como uma estátua viva dos deuses da antiguidade.

Lucy piscou, sentindo a colisão inusitada entre pânico e encanto. Como ele conseguia ser tão bonito sem o menor esforço? Era injusto!

— N-Natsu! — tentou soar casual, mas a voz vacilou. Forçou um sorriso, ignorando o calor repentino que lhe subiu ao rosto. — Quando foi que você chegou aqui?

— Agorinha. Você tava aí, no mundo da lua, como uma doida — disse ele com a habitual despreocupação, adentrando o quarto como se fosse dono do espaço, sem pedir licença, sem hesitar.

Lucy desejou, por tudo, que o chão se abrisse e a engolisse. Como é que poderia encará-lo depois de tudo o que escrevera?

— Estava só pensando em voz alta! — rebateu, tentando soar convincente.

Natsu arqueou uma sobrancelha, divertido, mas não insistiu. Apenas deu de ombros e permaneceu ali, parado no meio do quarto, como se fosse o lugar mais natural do mundo para se estar.

— Como foi a missão? — arriscou Lucy, numa tentativa de desviar a conversa.

— Até que foi legal. Conseguimos um bom dinheiro — estendeu com orgulho uma sacola de moedas. — A vila inteira agradeceu e deixou que a gente comesse aquele peixão — sorriu bastante satisfeito, pondo ambas as mãos sobre a barriga plana.

Lucy piscou. Imediatamente, uma cena mental se formou: Natsu e Happy, lado a lado, devorando um peixe colossal com uma voracidade inumana. Era um espetáculo que só eles poderiam protagonizar.

Uma gota imaginária surgiu acima de sua cabeça. Como era possível que os dois digerissem tamanha quantidade de comida sem entrar em colapso? Certamente, esse ainda era um dos grandes mistérios da humanidade.

— Cadê o Happy?

A ausência do pequeno exceed a incomodou de imediato, um detalhe que normalmente não teria tanta importância, mas que agora pesava sobre seus ombros como um presságio. Estar a sós com Natsu já era o suficiente para deixá-la inquieta, e sem Happy por perto, aquela sensação de vulnerabilidade se intensificava.

— Ele se encontrou com Wendy e Charlie no meio do caminho e decidiu ficar com elas — o garoto explicou levianamente.

— Entendi — deu um sorrisinho amarelo.

Foi tudo obra de sua imaginação, Lucy. Apenas isso.

— Você me fez bastante falta. 

 As palavras vieram sem aviso, diretas como uma rajada de vento forte, arrepiando-lhe a pele. Um choque percorreu sua espinha, o estômago revirando de forma traiçoeira. 

— E-Eu fiz??

— Claro que sim, Lucy! Somos um time — afirmou com simplicidade, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Então, sem cerimônia, acrescentou: — Ah, e quando passei mal no trem, não tive o seu colo.

Lucy piscou, sentindo o rosto esquentar. O comentário parecia inocente, mas havia algo ali, algo velado na forma como ele disse aquilo — um resquício de descontentamento, uma pequena queixa silenciosa. Por não ter ido conosco, sofri à míngua, era o que dizia.

Ela captou o olhar enigmático que ele lhe lançou, aquele brilho peculiar que, vez ou outra, surgia em seus olhos, carregado de algo que ela não queria decifrar. Então, como sempre fazia quando as coisas começavam a tomar um rumo perigoso, optou por ignorar.

E era verdade — há muito já se habituara a deixá-lo repousar a cabeça sobre seu colo. No início, fazia-o apenas por gentileza, um gesto pequeno para aliviar o tormento dele com os constantes enjoos, mas, com o tempo, algo mudou. Passou a gostar daquela proximidade mais do que gostaria de admitir. Seus dedos deslizavam por entre os fios macios de seu cabelo quase por instinto, desenhando círculos preguiçosos enquanto ele resmungava baixinho, relaxando sob seu toque. Contava-lhe histórias, ria das expressões satisfeitas que ele fazia ao pegar no sono, e, no fundo, sentia-se ridiculamente feliz por ser quem lhe proporcionava esse conforto.

O olhar de Natsu sobre si quebrou seus devaneios. Ele a estudava com aquela atenção inquietante, como se tentasse decifrar algo em sua expressão.

— O que fez o dia todo? — perguntou de repente, aproximando-se com naturalidade e inclinando-se sobre a escrivaninha.

— N-nada! — engasgou-se com a resposta, o coração falhando uma batida ao sentir o calor que emanava do corpo dele.

Estava próximo. Assustadoramente próximo. Sedutoramente próximo.

— Ah, olha só! — exclamou com entusiasmo ao avistar as folhas sobre a mesa, pegando-as com uma agilidade descomunal. — Tá escrevendo algo novo, Lucy?

E então, tudo em sua mente acendeu como uma sirene ensurdecedora. O desespero subiu como uma onda violenta.

— NATSU, ME DEVOLVE!! — gritou aflita, puxando os papéis com um movimento abrupto e abraçando-os contra os seios fartos, de forma quase instintiva, como se fossem a última linha de defesa contra algo que ela não queria admitir. — Hahaha, nem tá pronto ainda. Sabe como é, né? — forçou um sorriso desconexo, tentando desviar a atenção, mas seu tom falhou na tentativa de suavizar o desconforto que sentia.

Ele franziu o cenho.

— E daí? — falou o garoto, sem compreendê-la. — Não me importo de estar incompleto. Você escreve bem, Lucy, apesar de eu não entender as palavras difíceis que usa.

Você escreve bem. Ele havia elogiado a sua escrita. Não sabia por que estava tão inquieta em ouvir aquilo, tendo em vista que ele costumeiramente a elogiava.

— Lucy, você tá legal? — Natsu perguntou, agora com um toque de preocupação, os olhos escurecendo ligeiramente com um traço de dúvida.

Ela balançou a cabeça de imediato, tentando se recompor.

— Eu tô ótima sim, por que não estaria?! — retrucou desengonçada, as palavras escapando de forma desordenada, como se sua mente estivesse longe do que seu corpo dizia. Perfeitamente bem.

— Você tá vermelha — ele murmurou, aproximando-se ainda mais. Tocou a testa da garota averiguando a temperatura, de modo que ficara a poucos centímetros de distância; ela prendeu o ar. — Você não tá com febre — decretou, a confusão em seu rosto mais evidente do que nunca.

E, no entanto, ele não se afastou. Pelo contrário, permaneceu ali, fixando seus olhos nela, à espera de uma explicação. Ela não conseguia respirar com naturalidade, como se a atmosfera ao seu redor tivesse se espremido, tornando-se insuficiente para o que ela estava sentindo. O ar parecia enredado em torno dela, apertando-lhe o peito. E ele, com aqueles olhos, tão intensos e desprovidos de qualquer malícia, estava perto demais. Estava absorvendo cada pequena mudança nela, e isso, por alguma razão, a fazia querer fugir, mas ao mesmo tempo a impedia de fazer qualquer movimento.

O silêncio entre eles parecia não ser mais uma pausa tranquila, mas uma pressão insuportável. Ela não sabia o que dizer, nem como lidar com aquele olhar. Cada segundo que se passava ao lado de Natsu era uma batalha entre ela e a vontade de se afastar, e, ao mesmo tempo, a tentativa desesperada de se manter calma. Porque, ao olhar para ele, ela se via desprotegida. E essa sensação, vulnerável e inebriante, era aterradora.

— E seu coração tá acelerando — ele completou, agora com uma preocupação genuína em seu tom, como se pudesse enxergar algo que ela tentava desesperadamente esconder. Ele parecia tão alheio ao impacto que suas palavras causavam nela, tão distante da consciência de que o simples fato de ele observar o jeito como ela respirava e o pulsar descompassado de seu coração estava fazendo com que ela se perdesse.

Naquele momento, sentiu-se agraciada por Natsu ter um raciocínio tão vagaroso para aquele tipo de coisa. A lentidão que possuía para ler uma simples linguagem corporal beirava o absurdo. Lucy certamente estaria encrencada se fosse outra pessoa que não Natsu a possuir uma audição tão apurada.

— Eu tô bem, não se preocupe — mentiu, a voz trêmula apesar de seu esforço em manter a fachada. Virou-se rapidamente, seus passos apressados até a prateleira dando-lhe uma desculpa para se distanciar, enquanto guardava os papéis como se fosse o único refúgio que ela poderia encontrar naquele momento.

— Você tá esquisita. 

A observação dele, direta e sem rodeios, fez seu estômago se apertar mais uma vez, e ela fechou os olhos por um instante, buscando o equilíbrio que a situação lhe roubava.

— É tudo coisa da sua cabeça, Natsu — Eu não estou apaixonada por você, completou mentalmente. 

— Se você diz… 

Natsu então respirou fundo, afastando-se um pouco da tensão palpável que pairava no ar, e se deixou cair sobre a cama de Lucy com a mesma indiferença de sempre, jogando-se de costas contra o colchão macio.

— Ah, não, Natsu! Troquei a fronha hoje — Lucy choramingou ao vê-lo esparramado sobre sua cama com a mesma desenvoltura de um rei preguiçoso, indiferente à indignação da súdita. Mas que rei imundo! Nem sequer tinha tomado banho ou trocado de roupa. Ela cruzou os braços, o cenho franzido em pura desaprovação. — Pode ir saindo já daí! 

Sem esperar que ele acatasse a ordem por vontade própria, Lucy avançou decidida. Com um puxão impiedoso, arrancou o lençol de debaixo dele, e o pobre mago do fogo rodopiou no ar como um boneco de pano, para então aterrissar com um baque no chão. Quando queria, sabia ser implacável.

— Ugh, qual é, Lucy! Por que você é tão má?? — lamuriou ele, esfregando a cabeça dolorida antes de se erguer num salto ágil. — Por que você sempre me expulsa da sua cama? — disse infantilmente, fazendo um bico emburrado.

— Por que será? — ironizou, segurando o lençol contra o peito como se protegesse um tesouro. — Você tem casa, Natsu.

— Mas sua cama é mais confortável… — argumentou ele, fazendo um bico emburrado, como se aquilo fosse uma justificativa irrefutável.

— Além disso, você tá sujo. — Seu olhar desceu até as roupas empoeiradas dele, carregado de desagrado.

Contrariado com a recente afirmação, ele levantou o braço, cheirou a si mesmo e… CREDO! Ele de fato não estava cheirando como uma flor!

— Eu vou tomar um banho agora — declarou com uma resolução quase heroica, já se livrando da blusa e do cachecol num movimento automático.

E então ele ficou lá, de peito nu, sem qualquer hesitação ou constrangimento. Como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Na verdade… era normal. Agora que pensava bem, Lucy percebeu que já tinha visto Natsu daquele jeito tantas vezes que, em teoria, não deveria ser grande coisa.

Mas, por algum motivo, naquele momento em particular, foi.

Ela engoliu em seco, como se sua própria garganta a traísse. Seus olhos, sem permissão, desceram pelo peitoral firme do garoto, passando pelos ombros largos e pelos gomos perfeitamente delineados de seu abdômen. E, antes que percebesse o perigo, haviam parado na linha da cintura de sua calça.

Baixa demais.

Abaixo do umbigo, os músculos traçavam linhas tentadoramente definidas, conduzindo sua visão de maneira inevitável para onde ela definitivamente não deveria estar olhando. Aquele maldito V esculpido na lateral do corpo, aprofundando-se em direção a um ponto proibido.

O calor subiu até suas bochechas como fogo. 

Maldição.

Sentia-se quente. Não, fervia de calor. Como se estivesse sob o sol escaldante de meio-dia, envolta por um calor que subia da pele e se enroscava em sua espinha.

Precisava acreditar — precisava se convencer — de que aquilo era apenas vergonha e fúria reprimida. Nada além disso. Afinal, aquele tipo de… ãhn, exposição já não deveria mais lhe causar impacto algum. Era normal. Fazia parte da rotina. Ela já tinha visto Natsu sem camisa tantas vezes que a novidade já devia ter se esgotado há muito.

Então por que, de repente, seu cérebro decidira que aquela era a primeira vez?

Não fazia sentido que, sem mais nem menos, seu corpo resolvesse notar coisas que antes passavam despercebidas. Não havia lógica em se tornar, do nada, tão consciente da masculinidade escancarada dele. Não estava, de forma alguma, atraída por aquele peitoral bronzeado e talhado em músculos. Óbvio que não.

Seu rosto ardia porque estava irritada. Sim, era isso. Estava furiosa porque Natsu era um selvagem desprovido de qualquer noção de etiqueta. Um malcriado que invadia sua casa sem cerimônia, sujava sua cama sem o menor pudor e, como se não bastasse, agora desfilava sem camisa como se aquele lugar lhe pertencesse, ignorando por completo qualquer regra de convivência civilizada.

Ó, sim. Sem dúvidas, era exatamente isso.

Mas… se era somente isso…

Por que, diabos, ainda estava ali, parada, admirando cada detalhe daquele corpo meio despido?


Uma onda de desespero a atingiu.

Sentindo-se a mais pervertida das mulheres, mordeu o lábio e desviou o olhar para um ponto qualquer — qualquer coisa que não fosse aquele pecado esculpido à sua frente.

— N-Natsu, e-eu n-não acho qu—

— Vou pegar uma toalha no seu guarda-roupa, Lucy — ele anunciou, cortando sua fala sem a menor cerimônia. Já caminhava na direção do móvel, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo, pegando também uma muda de roupas limpas.

Era impossível negar: Natsu havia praticamente feito do apartamento dela seu segundo lar. Embora já fizesse algumas semanas que não dormia ali, suas coisas permaneciam espalhadas pelo espaço, como marcas de território deixadas sem pudor. Não eram apenas roupas — havia também pequenos vestígios de permanência, como a escova de dentes vermelha repousando no copinho do banheiro, lado a lado com a dela, azul.

Depois de Natsu pegar suas coisas e entrar no banheiro, Lucy permaneceu ali, inerte. Parecia que todo o seu corpo estava em transe, amolecido. Tudo o que conseguia processar era o barulho da água caindo no banheiro e o cheiro de sabonete que pelas frestas escapava.

Ela aguardou pelo que lhe pareceu uma eternidade, até que não conseguiu mais se conter. Seus pensamentos estavam perigosamente soltos, soltos demais para seu próprio bem. Primeiro, veio a imagem dele sob o jato morno, os olhos fechados, a cabeça tombada para trás enquanto a água escorria por sua pele. Depois, suas mãos se movendo, deslizando sabão sobre o peito, os ombros, os braços. E então—

Controle-se, Lucy!

Num sobressalto, soltou um gemido frustrado e afundou o rosto entre as mãos, como se aquilo fosse capaz de lavar sua mente das imagens indecorosas que haviam se formado sem permissão.

O barulho do chuveiro parou.

Sentiu a tensão em seus músculos aumentar.

Um minuto depois, a porta se abriu, e a nuvem de vapor dissipou-se lentamente, revelando a figura de Natsu.

Os cabelos ainda úmidos caíam em mechas desgrenhadas sobre seu rosto. A toalha pendia displicente em torno do pescoço enquanto ele terminava de secar os fios. Vestia uma camisa — e Lucy não sabia se deveria se sentir aliviada ou frustrada com isso.

Mas havia algo ainda pior. 

Ele cheirava bem. Bem demais

Ele exalava um aroma fresco, misturando a suavidade da lavanda com o toque revigorante do hortelã-pimenta. 

Aqueles eram os produtos de banho de Lucy. Natsu não tinha o hábito de comprar shampoo e seus cuidados para com o cabelo eram mínimos — lavava-os com sabonete —, mas sempre que ia na casa de Lucy, esvaziava praticamente a embalagem toda. Para gastar tanto assim, Lucy só conseguia imaginar o maldito usando o produto como sabonete líquido também.

Em qualquer outra circunstância, aquilo a faria ranger os dentes de raiva. Mas, naquele momento, sequer conseguia formular uma reclamação.

O aroma, já tão familiar em sua própria pele, adquiria uma nova dimensão quando impregnava a dele. Sobre sua pele quente, bronzeada e ainda úmida, a fragrância se tornava algo quase hipnótico, uma mistura perigosa de frescor e calor que fazia sua mente girar.

— Ahhh, tô me sentindo novo em folha — comentou ele, satisfeito, cheirando a si mesmo como se estivesse genuinamente impressionado com o resultado. — Agora não tem mais razão pra você me querer longe, né, Lucy?

A voz saiu arrastada, ligeiramente rouca.

Lucy piscou, engolindo em seco.

Os cabelos rosados ainda pingavam, mechas desgrenhadas caindo sobre a testa de forma quase insolente. Mas foram os olhos dele que realmente a desarmaram — brilhantes, divertidos, e, ao mesmo tempo, carregados de algo indefinível. Algo que a fez prender a respiração sem nem perceber.

Um arrepio percorreu sua espinha quando ele começou a se aproximar.

Antes que pudesse processar o que estava acontecendo, sentiu os braços dele envolvê-la.

Firme. Quente. 

Apertado demais. 

— N-Natsu! — arfou, mas sua voz soou ridiculamente fraca, quase um sussurro. 

Ele apenas riu contra seus cabelos, murmurando algo inaudível contra sua pele. 

E Lucy soube, naquele instante, que estava perdida. 

— Ah, como eu senti falta disso! — ele murmurou, a voz carregada de calor enquanto apertava Lucy contra si, um sorriso genuíno se formando em seus lábios. 

Lucy sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Seu estômago revirou, um turbilhão de borboletas explodindo dentro de si. Sem perceber, um sorriso começou a brotar em seus próprios lábios, suave, hesitante. 

Ela fechou os olhos por um breve instante e, num gesto quase inconsciente, aproximou o rosto do pescoço dele, inalando discretamente o aroma que se misturava ao frescor do banho. 

O corpo dele estava frio. O dela, quente. 

Seus batimentos estavam tão acelerados que Lucy quase podia ouvi-los em seus próprios ouvidos. 

Sem pensar, começou a erguer os braços, prestes a retribuir o abraço—mas então a realidade a golpeou como um balde de água gelada. 

O que estava fazendo? 

Num sobressalto, recuou. 

As mãos pousaram firmes contra o peito dele, empurrando-o suavemente, mas de maneira inegavelmente definitiva. 

Os olhos de Natsu se arregalaram levemente, confusos. 

Lucy nunca o havia repelido assim antes. — O que há de errado, Lucy? — Sua voz soou baixa, quase gentil, mas carregada de uma incerteza estranha. — Eu não estou mais fedendo, tá vendo? 

Ela desviou o olhar, mordendo o lábio com nervosismo.

— N-Natsu, eu… — As palavras ficaram presas em sua garganta. Seu peito subia e descia rápido demais. — Por favor, vá embora. Preciso… ficar sozinha. 

Ele tentou, de verdade. Mas não conseguiu conter a própria frustração.

— JÁ CHEGA! — A voz dele ecoou pelo apartamento, carregada de exasperação. — CANSEI! SE EU CONTINUAR DESSE JEITO, VOU ENLOUQUECER!

Lucy sentiu um aperto no peito. Sua respiração vacilou.

Ele fechou os olhos por um instante, tomando fôlego como se tentasse reunir os cacos de paciência que lhe restavam. Quando voltou a encará-la, seu olhar ardia com uma intensidade quase sufocante.

— Lucy, você tem estado estranha ultimamente. Nem pense em negar! — O tom dele era firme, acusador. — Você não é a rainha da sutileza, sabia?

Ela se encolheu. 

— Não acredito que pensou que eu seria idiota a ponto de não perceber que tem me evitado como se eu fosse a peste! — A voz dele transbordava frustração. — Eu te conheço melhor do que pensa, Lucy.

Dessa vez, ele disse mais baixo. Não havia mais explosão, apenas um peso magoado.

O coração de Lucy falhou uma batida. 

Seu estômago revirou, não com o calor familiar das borboletas, mas com uma pontada amarga de arrependimento.

Como pudera subestimá-lo assim?

Natsu era impulsivo, desajeitado, cabeça-dura… Mas nunca foi burro.

E, acima de tudo, nunca foi cego quando se tratava dela.

Lucy sentiu um nó se formar em sua garganta. 

Era ela a idiota. 

— No começo, achei que fosse coisa da minha cabeça… ou que você estivesse naquela fase louca de mau humor que vocês mulheres costumam ter todo mês… — O desabafo veio acompanhado de um riso nervoso, mas a frustração em sua voz era inegável. — Mas não é isso, é? 

Os punhos de Natsu se fecharam ao lado do corpo, como se ele estivesse tentando conter a inquietação.

— Eu me controlei o quanto pude (e você sabe que isso não é meu forte!) Respeitei seu espaço, fiquei esperando… Mas já chega, Lucy. Não dá mais.

Ele passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais. A intensidade de seu olhar fazia Lucy querer desviar o rosto, fugir dali. Mas ao mesmo tempo, a prendia no lugar.

— Por tudo que é mais sagrado… me diz o que eu fiz de errado.

Sua voz baixou, o peso da incerteza carregando cada palavra.

— Eu sou lerdo, impulsivo… Talvez tenha te magoado e nem percebi. Se fiz algo imperdoável, me diz. Eu conserto. Eu peço desculpas direito, do jeito que você quiser. Mas não me deixa assim, Lucy.

Os olhos dele queimavam.

— Você sabe que me importo com você, né? Você é minha família. E não qualquer família. Você é a pessoa mais próxima que eu tenho… mais que qualquer um da Fairy Tail.

A dor crua em sua voz a atingiu como um golpe.

— Eu não aguento ser desprezado por você, Lucy.

Ela sentiu a respiração falhar.

Era difícil encará-lo quando ele se mostrava assim. Quando toda a energia transbordante de Natsu se recolhia e dava lugar a essa versão dele — tão honesta, tão transparente — que a fazia perceber o quão tola havia sido.

Nos momentos de seriedade, Natsu não era apenas aquele pateta barulhento e impulsivo.

Era um homem.

E um homem capaz de mover céus e terra por aqueles que amava.

O peito dela apertou.

— Eu jamais desprezaria você, Natsu — murmurou, a voz carregada de sinceridade.

Ela ergueu a mão e a pousou suavemente na lateral do rosto dele.

Natsu fechou os olhos por um instante, inclinando-se sutilmente ao toque, e cobriu a mão dela com a sua. O calor de sua palma, firme e reconfortante, fez algo dentro de Lucy vacilar.

— Acredite… você é uma das pessoas mais importantes e especiais pra mim.

Ela inspirou fundo, reunindo coragem. 

 — A verdade é que eu… 

Mas a garganta se fechou.

O que tanto queria dizer ficou preso, sufocado pelo medo.

Acovardada, desviou os olhos e afastou a mão, quebrando o contato.

O ar entre eles pareceu mudar. O vazio deixado pela ausência daquele toque era quase palpável.

E Natsu percebeu.

— Eu estou bem. Só preciso colocar algumas ideias em ordem, só isso. 

A mentira soou frágil, quebradiça, escapando por seus lábios como um sussurro hesitante. Lucy nunca fora boa em mentir — e Natsu sabia disso.

Ele a estudou em silêncio, os olhos buscando nela uma verdade que não estava sendo dita. 

— Preciso ficar sozinha hoje. Por favor, Natsu, não me negue isso — murmurou, os olhos sombrios de tristeza.

Um músculo saltou em sua mandíbula quando ele inspirou fundo, prendendo o ar por um instante antes de soltá-lo lentamente pelo nariz.

— Vou indo então — disse, a voz firme, mas carregada de ressentimento.

Os olhos dele brilharam por um segundo, como se quisesse dizer algo mais. Algo que ficou preso, sufocado pelo orgulho ferido.

— Até depois, Lucy.

Surpreso com o gosto amargo que se espalhava pela boca, estendeu a toalha para ela num gesto quase mecânico. Forçou um sorriso breve — rígido, sem alegria — e acenou. Então, sem mais uma palavra, deu-lhe as costas e pulou pela janela, sumindo na noite.

O silêncio que se instalou foi ensurdecedor. 

Lucy permaneceu imóvel por um instante, fitando o espaço vazio onde Natsu estivera momentos antes.

Então, sem conseguir segurar por mais tempo o peso que lhe pressionava o peito, sentou-se na cama e escondeu o rosto entre as mãos.

Agora sozinha, permitiu-se afundar na própria tristeza.

Ela precisava de tempo. Precisava organizar seus sentimentos, entender o turbilhão de emoções conflitantes que a consumiam. 

E, acima de tudo, precisava manter Natsu longe.

Porque tê-lo ali, agora, só tornaria tudo ainda mais difícil. 

Racionalmente, queria acreditar que havia feito o certo. Convencia-se de que precisava daquele espaço, daquele tempo sozinha. No entanto, bastou o último olhar que Natsu lhe lançou para que seu coração se apertasse em um nó sufocante. 

Ela conhecia todas as versões dele — o radiante, o furioso, o brincalhão, o eufórico, o teimoso, o protetor, o competitivo, o bêbado e o infantil. Sabia lidar com todas elas. Mas não com aquela. Não com o Natsu decepcionado.

O modo como a olhou, como se tivesse acabado de sofrer a maior das rejeições, a fez sentir como se tivesse cometido um crime.

Se ao menos ele tivesse agido de forma infantil, exagerando em sua teatralidade, jogando os braços para o alto e resmungando algo como: “Hunf! Já que você não me quer aqui, vou dormir ABRAÇADO COM O HAPPY NO CONFORTO DA MINHA CASA, JÁ QUE EU NÃO SOU BEM-VINDO NA CAMA DA MINHA PARCEIRA!” 

Teria sido ridículo. Teria sido um escândalo. Teria sido cômico ao ponto de fazê-la querer se enterrar de vergonha, principalmente ao imaginar os vizinhos ouvindo uma frase tão ambígua e chegando a suas próprias conclusões sobre o relacionamento dos dois. 

Mas teria sido mais fácil. 

O constrangimento, por mais absurdo que fosse, teria sido infinitamente mais suportável do que essa culpa esmagadora que agora pesava sobre seu peito. 

Por que tudo tinha que ser tão difícil? Por que precisava se sentir assim? 

Estava ficando maluca. 

E tudo por culpa dele! 

Mordeu o lábio inferior, frustrada. 

Droga.

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