“Confissões” Apenas Você e Eu — Capítulo IV Fairy Tail (フェアリーテイル)
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Em uma cabana isolada nos arredores de Magnólia, perdida no coração de uma floresta selvagem e cercada por montanhas imponentes e precipícios rochosos, Natsu Dragneel permanecia estirado, mal-humorado, com os olhos fixos no teto da pequena sala.
O ambiente à sua volta era uma verdadeira bagunça — resquício de meses de descuido e desleixo. O caos parecia refletir seu estado interno, um turbilhão de pensamentos e sentimentos que ele não conseguia organizar. Enquanto seus dedos brincavam com a franja bagunçada de seus cabelos, ele rememorava o ocorrido quatro horas antes.
Em uma situação normal, ele estaria no prédio da guilda, trocando piadas com os camaradas, se empanturrando de comida e talvez até começando uma briga com Gray ou Elfman. Mas essa não era uma situação qualquer.
Ele estava despedaçado.
Nas últimas semanas, Lucy vinha se comportando de maneira estranha. Mais fria do que um bloco de gelo, mais distante do que ele jamais imaginara. Lucy, a pessoa que ele conhecia tão bem, que ocupava um lugar imenso em seu coração, estava se afastando dele sem explicação. Ela sempre fora sua família, mas não da maneira impessoal com que via os outros membros da guilda. Era algo mais profundo, mais... íntimo. E, no entanto, por mais que ele tentasse entender, ela se distanciava cada vez mais, como se quisesse construir uma barreira invisível entre eles.
Nos últimos dias, ele havia ficado praticamente o dia inteiro sem vê-la, e a falta dela corroía seu peito. Não era só a presença física que faltava; era o riso dela, o calor que ela irradiava, o modo como ela sabia acalmá-lo com um simples gesto. Até o perfume dela — aquele aroma doce e familiar — parecia distante, e ele não conseguia entender o porquê. Estava claro que a necessidade de estar perto dela era apenas sua, enquanto ela parecia estar se esquivando, evitando sua companhia.
E cara, aquilo doía... doía pra caramba!
Aquele silêncio não combinava em nada com ele. Desde quando ficava tanto tempo parado, encarando o teto e remoendo pensamentos? Nunca fora alguém de perder tempo com conjecturas sobre o futuro; sempre vivera no presente, seguindo seus instintos e lidando com os desafios conforme surgiam. Mas nas últimas horas, pela primeira vez em muito tempo, ele se viu imerso em reflexões sobre um cenário que não queria sequer considerar: uma vida sem Lucy ao seu lado.
E a conclusão a que chegou foi simplesmente insuportável.
Natsu nunca se considerou um cara complicado. Pelo contrário, sempre se orgulhara de sua franqueza, de sua transparência. Nunca soube ser outra coisa além de si mesmo. E Lucy… Lucy era igual. Ele sempre admirou isso nela. Talvez por isso tenha cometido o erro de acreditar que, entre os dois, já não havia mais segredos.
Mas a verdade era que ele não era tão tolo quanto muitos acreditavam. Sabia que existiam coisas que Lucy jamais compartilharia com ele. Ela era uma mulher, afinal de contas, e se havia algo que aprendera ao longo dos anos — primeiro com uma certa ruiva, depois com uma certa albina — era que algumas coisas simplesmente não eram fáceis de dividir com um homem. Isso ele entendia. Talvez por isso tenha hesitado tanto em confrontá-la.
Ainda assim, Lucy nunca fora do tipo que recorria a evasivas. Quando algo a incomodava, ela dizia. Quando não queria falar sobre algo, deixava claro. Mas agora… agora ela estava se afastando. Evitando-o. Criando barreiras que nunca haviam existido entre eles.
A sua Lucy jamais faria isso.
Lucy, Lucy, Lucy. Quantas vezes já repetira esse nome nas últimas horas? Ou melhor, quantas vezes sua mente evocara o rosto dela nas últimas semanas? Era normal pensar tanto em alguém? Não deveria estar se preocupando com outras coisas? Treinar seu físico, aprimorar suas habilidades, comer?
CACETADA!
Passara mais de quatro horas obcecado com Lucy e nem uma única vez pensara em comida!
ALGUMA COISA ESTAVA MUITO ERRADA!
Enquanto Natsu assimilava essa aterradora constatação, do lado de fora da cabana, um viajante perambulava pela floresta. Seu olhar atento captou o brilho do luzeiro escapando pela janela da pequena construção e a fumaça sinuosa que subia da chaminé.
Curioso — e seduzido pela perspectiva de um abrigo confortável para passar a noite —, o homem seguiu na direção da cabana e bateu à porta.
Natsu, perdido em seus devaneios, só registrou o som na segunda batida.
Lançando um olhar desanimado para a entrada, suspirou e se levantou sem pressa. Abriu a porta e, para sua surpresa, deparou-se com ninguém menos que Gildarts.
O ruivo esboçou um largo sorriso assim que o reconheceu. Com a barba por fazer e carregando uma trouxa de viagem, entrou sem cerimônias, empurrando a porta com energia.
— Rá, Natsu! Então era você mesmo que estava aqui! — exclamou, varrendo o ambiente caótico com um olhar divertido. — Pensei que alguém tivesse invadido sua toca, então resolvi dar uma olhada.
Depois de uma rápida — e claramente reprovadora — varredura pelo ambiente, Gildarts soltou um largo sorriso antes de voltar sua atenção para Natsu.
— Valeu pela consideração, Gildarts — respondeu o mais jovem, aproximando-se. — E então, por onde você andou?
O veterano começou a se instalar sem cerimônias, largando sua trouxa de viagem em um espaço vago diante da lareira acesa.
— Ah, estive por aí, vagando pelo mundo. O de sempre — disse, dispensando o assunto com um gesto indiferente enquanto desatava o nó do embrulho. — Tive sorte de passar justo por aqui. A qualquer momento vai desabar uma tempestade daquelas. E o Happy? Cadê ele? Achei que nunca desgrudasse de você.
Natsu bufou, cruzando os braços.
— Ele agora só pensa na Charlie. Foi passar a noite na casa da Bisca e do Alzack pra desabafar já que, aparentemente, eu, o melhor amigo dele, não tenho bagagem pra dar conselhos amorosos.
A voz do Salamander era puro veneno.
— Nesse momento, aposto que tá brincando de Pégaso com a Asuka — completou, revirando os olhos.
Gildarts soltou uma risadinha zombeteira.
— Ai! A dor da rejeição...
Natsu lançou um olhar de poucos amigos, mas logo relaxou e sentou-se ao lado do mais velho, observando-o retirar seus pertences do pano amarrado.
— Pois é, parece que o Happy já tem suas prioridades bem definidas — brincou Gildarts, até que algo lhe ocorreu. Ele arqueou uma sobrancelha e perguntou, em tom sugestivo: — Mas e você? Não deveria estar no apartamento da loirinha? Pensei que tivesse fixado residência lá.
Natsu fez uma careta ainda maior.
— Lucy também não me quis. Pediu que eu fosse embora. Disse que precisava de um tempo sozinha pra colocar as ideias dela em ordem.
Problemas no paraíso.
Gildarts, com toda a sua experiência de vida, absorveu a informação em silêncio, refletindo sobre a situação.
— Entendi — murmurou, sentando-se ao lado do garoto e estendendo as mãos para a lareira, deixando o calor envolver seus dedos. — E então, você veio pra cá remoer o porquê dela ter feito isso.
— É... — Natsu respondeu, cabisbaixo, as chamas dançando em reflexos dourados dentro de suas íris.
Gildarts sacou uma pequena garrafa de rum do interior de sua trouxa — andava sempre com uma, afinal, era um homem prevenido — e tomou um gole demorado. Estavam prestes a ter uma daquelas conversas sérias que pediam uma dose de álcool.
Sem dizer nada, estendeu a garrafa para Natsu, que aceitou de pronto, levando-a aos lábios sem hesitar. O líquido queimou sua garganta, mas ele não reclamou.
— Sabe, Natsu, todos nós precisamos de um tempo sozinhos, de vez em quando — começou Gildarts, fitando o fogo com um olhar distante. — Não é que deixemos de confiar nas pessoas que amamos. É só a maneira que encontramos de nos reconectar com nós mesmos.
Sua voz soava serena, carregada de experiência. Ele girou a garrafa entre os dedos antes de prosseguir.
— Faço isso o tempo todo. As pessoas acham que eu vivo perambulando de cidade em cidade porque não gosto de estar com minha família, mas estão enganadas — Ele lançou um olhar significativo para o mais jovem. — Você sabe tão bem quanto eu que não tem como não amar a Fairy Tail. Uma vez que você entra naquela guilda, não há mais volta. Em lugar algum você se sente tão abraçado quanto lá.
Natsu assentiu silenciosamente, os olhos fixos nas chamas crepitantes.
— Minhas viagens são longas, mas sempre têm um fim. E quando volto para casa, percebo que toda aquela distância valeu a pena — Gildarts esboçou um sorriso nostálgico, lembrando-se de Cana. — Se reconectar consigo mesmo é essencial, mas nada supera a alegria de voltar e encontrar aqueles que amamos. De sentir o quanto sua ausência foi sentida.
Natsu absorvia cada palavra em silêncio, os olhos baixos, enquanto tomava outro gole da bebida. A garrafa repousava entre os dois, à mercê de quem quisesse mais um gole.
Gildarts o observou por um instante antes de soltar, em um tom tranquilo, mas direto:
— Lucy querer um tempo sozinha é perfeitamente compreensível, Natsu. E, convenhamos… seria hipocrisia da sua parte se magoar com isso, considerando tudo o que você já fez ela passar.
O mais novo arregalou os olhos, subitamente ofendido com aquela afirmação.
— O que eu fiz?
Gildarts ergueu uma sobrancelha, cruzando os braços como se a resposta fosse óbvia.
— Então já esqueceu que, logo após a luta contra Tártaros, quando a Fairy Tail havia acabado de ser dissolvida, você e Happy partiram para uma jornada de treinamento por um ano… e sequer tiveram a consideração de se despedir dela apropriadamente?
O jovem sentiu um aperto no estômago.
— Não foi uma atitude honrada, Natsu — continuou Gildarts, sua voz firme, mas sem qualquer traço de agressividade. — Lucy depositava toda a fé que tinha em você. E justo quando ela mais precisava, num momento de completa fragilidade emocional, você simplesmente foi embora. Sem uma palavra, sem um adeus digno.
Ele tomou mais um gole de rum, enquanto Natsu se encolhia, o peso daquelas palavras recaindo sobre ele. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se pequeno, vulnerável diante da verdade.
— Eu entendo que você teve seus motivos, e não o culpo por querer focar em se tornar mais forte — prosseguiu Gildarts, lançando um olhar compreensivo. — Já te disse, às vezes precisamos de um tempo sozinhos. Mas da mesma forma que você estava devastado pela perda do Igneel, Lucy também estava em ruínas. E, convenhamos, Natsu, ela merecia muito mais do que uma mera carta.
As chamas na lareira estalaram suavemente, preenchendo o silêncio denso que se instalou entre eles. Natsu abaixou a cabeça, os punhos cerrados sobre os joelhos.
— Consegue imaginar o quanto ela sofreu ao descobrir de forma tão fria que você havia partido? — Gildarts suspirou, apoiando os cotovelos nas coxas. — Você era o porto seguro dela, o companheiro para todas as horas… e, de repente, desapareceu.
O peso das palavras de Gildarts era esmagador. Natsu nunca havia parado para refletir sobre o quão egoísta e inconsequente podia ser em suas atitudes. Depois do fim da batalha contra Tártaros, fora consumido pelo luto. Seu amado pai, Igneel, por quem passara a vida inteira buscando, morrera diante de seus olhos. A dor daquela perda o dilacerou de um jeito que nem mesmo ele soubera expressar. Naquele tempo, não pensava em nada nem em ninguém. Apenas queria fugir, se afastar do mundo, enterrar o sofrimento no silêncio de uma jornada solitária e se fortalecer para o inevitável confronto contra Zeref. Sua decisão de partir fora impulsiva, mas necessária. Nunca se arrependeu da peregrinação, pois foi ela que lhe permitiu superar a dor e amadurecer.
No entanto, em seu desespero por um refúgio, ignorara uma verdade cruel: não era o único com o coração em pedaços. Lucy, assim como ele, perdera sua família. A Fairy Tail se dissolvera, e cada um seguiu seu próprio caminho, deixando-a sozinha para enfrentar um vazio que ela tanto temia.
Lucy crescera envolta em solidão. Sem o calor de um amor materno ou paterno, sem amigos para preencher suas tardes. Sua carência afetiva era tamanha que, quando criança, invocava Aquarius não para batalhas, mas para ter com quem brincar e conversar. A guilda fora sua primeira experiência de pertencimento, e Natsu, seu primeiro laço genuíno de amizade e carinho.
E ele simplesmente sumira.
A imagem dela chorando, sentada sozinha naquele apartamento vazio, atingiu-o como um soco no estômago.
Com um suspiro trêmulo, Natsu passou as mãos pelos cabelos, sentindo a culpa o sufocar. Lucy jamais o punira por sua escolha. Mesmo ferida, nunca o acusara ou lançara palavras de rancor. Pelo contrário: sempre o acolhera de volta, envolvia-o em abraços tão apertados que às vezes se tornava difícil respirar.
Porque essa era a essência dela.
E ele a amava exatamente por isso.
— Ela tem razão em querer se afastar de mim. Sou um idiota — disse por fim, amargo.
Gildarts sorriu discretamente.
— Ei, rapaz, ânimo! — pôs a mão sobre o ombro do mais novo. — Ela com certeza estará de volta ao normal amanhã de manhã — consolou.
— Não, não acho que será assim, Gildarts — disse franco. — A situação é muito mais complicada do que apenas isso.
Seus olhos brilhavam com um cansaço que não vinha de batalhas físicas, mas de uma guerra interna que travava sozinho.
O mais velho arqueou uma sobrancelha.
— Complicada como?
O Dragon Slayer passou a língua pelos dentes, buscando as palavras certas.
— Lucy não quer se distanciar dos outros…quem dera fosse! — sua voz carregava frustração — Ela está se afastando de mim. Só de mim. É como se eu fosse uma praga, algo que ela precisa evitar a todo custo, como se minha simples presença representasse algum tipo de perigo.
Gildarts franziu a testa, mais atento agora.
— Você precisa ver o quão estranha ela anda. Às vezes, por um instante, penso que a Lucy de sempre voltou... mas então, quando faço menção de tocá-la, ela recua. Como se... como se meu toque a queimasse — Ele passou a mão pelo rosto, exausto. — Hoje, ela praticamente me implorou para deixá-la sozinha! Você tem ideia do que é isso?
Ele pegou a garrafa e tomou um gole fundo, tentando dissipar a sensação incômoda que suas próprias palavras traziam.
— Havia algo nos olhos dela, Gildarts. Uma tristeza densa, sufocante. Como se estivesse lutando contra um inimigo invisível. Um inimigo que eu não conheço... e que ela se recusa a me deixar enfrentar ao lado dela.
Gildarts escutava tudo aquilo em silêncio, os olhos semicerrados em uma análise minuciosa.
— Há quanto tempo ela vem se comportando desse jeito?
— Já tem algumas semanas. Sempre percebi que algo estava errado, mas... — desviou o olhar, incomodado. — Sei lá, cara. Eu tinha medo do que poderia ouvir se perguntasse. Então simplesmente adiei o confronto — Soltou uma risada amarga. — Engraçado admitir que fui covarde, né?
Gildarts apenas ergueu uma sobrancelha, incentivando-o a continuar.
— Quando me vê, Lucy se atrapalha. Fica ansiosa, como se não soubesse o que fazer com as próprias mãos. Até o corpo dela entrega que tem alguma coisa errada.
O mais velho tomou um gole da bebida antes de perguntar, num tom casual:
— Ah, é? E que tipo de indícios são esses, Natsu?
Aquela conversa estava começando a ficar interessante.
— Ela fica vermelha, a pele esquenta, o coração dispara... e parece... lenta. Como se estivesse meio perdida.
Gildarts fez um esforço monumental para manter a expressão neutra e não estampar no rosto a pura diversão que sentia.
— Sei… Ãhn, e você não faz ideia do que pode estar ocasionando todas essas coisas nela?
Novo gole.
— Não, Gildarts, sabe que sou péssimo com esse tipo de coisa! — retrucou o garoto, abraçando as próprias pernas de forma defensiva.
— Nem uma fagulha mínima? — perguntou quase que sofrido.
— Acho… que ela já não gosta mais de mim tanto quanto antes e não sabe como dizer sem me magoar.
Gildarts umedeceu os lábios, em tempo de por as mãos na cabeça e arrancar os próprios cabelos. Era incrivelmente frustrante o quão lento Natsu conseguia ser.
Tadinha da Heartfilia, se apaixonou por um cabeça oca.
— Oras, Natsu, deixa disso, é claro que não é isso! — disse em tom desgostoso, dando um gole generoso na bebida. — Você é cego?! Precisa aprender a ler os sinais, cara! Todo mundo sabe que aquela garota te a- POR MAVIS! ISSO SÃO LÁGRIMAS NOS SEUS OLHOS, NATSU?
— CLARO QUE NÃO! TÁ LOUCO!??
Natsu virou o rosto depressa, passando a mão pelos olhos de forma brusca. Mas, por mais que tentasse, as malditas lágrimas insistiam em brilhar, traindo-o diante do mais velho.
Era ridículo. Ele, Natsu Dragneel, o homem que enfrentava dragões e desafiava deuses, estava ali, vulnerável, a ponto de chorar por causa de uma garota.
Desistiu de lutar contra si mesmo. Entregou-se à própria tristeza.
— O que eu vou fazer da minha vida se a Lucy não me quiser mais, Gildarts? — murmurou, a voz embargada. — Eu já não sei mais viver longe dela! Eu literalmente acordo pensando na Lucy e, adivinha só?, vou dormir e sonho com ela!
Riu, sentindo-se patético.
— Acredita que fiquei mais de quatro horas sem pensar em comida? Eu nunca fiz isso antes! Mas agora... agora não consigo tirá-la da cabeça. O rosto dela, a voz dela, o cheiro dela... Droga! — Passou a mão pelos cabelos, exasperado. — Eu tô completamente doido por ela!
Ergueu os olhos, encarando Gildarts com uma aflição quase infantil.
— Eu… amo a Lucy.
A palavra soou estranha, mas ao mesmo tempo tão certeira que sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Ele piscou, assimilando o peso da confissão.
— Sim... essa é a verdade — repetiu, com um riso sem humor. — Eu amo a Lucy, Gildarts. Amo de um jeito que não quero que ela se afaste nunca mais.
Era mais do que um simples gostar ou estar apaixonado. O que sentia transcendia tudo isso.
Há muito tempo esteve enredado àquele sentimento, ciente de sua complexidade, mas preferira ignorá-lo, afinal, para quê tentar compreender as coisas difíceis e inomináveis da vida? Ele era Natsu Dragneel, conhecido por ser um cara simples e despreocupado. Não era preso àquele tipo de coisa. Não perdia seu tempo tentando assimilar aspectos tão íntimos de si mesmo.
Aquilo, no entanto, mostrou-se um desafio desde que vira a Lucy do passado morrer em seus braços. A dor que o corroeu foi maior do que poderia suportar. A partir dali, compreendeu que não poderia se imaginar em um mundo em que sua Lucy não estivesse. Compreendeu que a partir dali, havia um sentimento que beirava o inquebrável. Uma palavra tão forte que jamais teria coragem de confessar a si mesmo; mas que jazia oculta, protegida em seu coração.
Mas agora, ali, diante de Gildarts e de si mesmo... não havia mais como negar.
No fim, ele nunca foi tão superficial quanto pensava ser.
Gildarts permaneceu imóvel, os olhos arregalados, sentindo-se como se tivesse sido lançado em uma dimensão paralela. Então era verdade... Natsu realmente nutria sentimentos por Lucy!
Por um triz não estragara tudo ao quase revelar o que já sabia sobre os sentimentos da Heartfilia. Sempre suspeitara que a relação daqueles dois ultrapassava os limites de uma simples amizade, mas jamais imaginou que viveria para testemunhar o dia em que Natsu — o mesmo Natsu imaturo, impulsivo e barulhento, cujo mundo girava em torno de lutas, desafios e comida — admitiria, em palavras tão cruas e incontestáveis, que estava amando.
Por anos, Gildarts supusera que, se um dia o jovem criasse juízo e se apaixonasse, seus sentimentos seriam direcionados a Lisanna. Um equívoco colossal. Tudo ficou claro assim que observou a forma como interagia com Lucy. Nenhuma mulher estivera tão próxima de Natsu quanto ela. Nenhuma o olhara como Lucy o fazia. Nenhuma mexera tanto com ele.
Aquilo era algo além de uma mera paixão. Era um vínculo profundo, inexplicável.
E, céus, que momento grandioso acabara de presenciar! Sentia-se como se tivesse recebido o privilégio de ouvir uma das mais épicas confissões da história da humanidade. Uma vontade quase paternal cresceu em seu peito — a vontade de erguer o garoto do chão em um abraço esmagador e dizer-lhe o quanto estava orgulhoso.
Mas conteve-se.
Diante dele, não estava mais o menino inconsequente de antes. O fogo da lareira tremulava sobre os traços masculinos de Natsu, conferindo-lhe uma gravidade que raramente se via nele. Era forte, sim, mas também vulnerável. Havia algo de desamparado naquele brilho úmido em seus olhos, nas mãos crispadas sobre os joelhos, no modo como sua respiração vacilava entre o riso e o desespero.
A garrafa de rum, agora vazia, repousava sobre o chão como uma testemunha muda de tudo o que fora dito naquela noite.
Do lado de fora, a tempestade se fazia ouvir, feroz e indomável, um reflexo da turbulência que se passava dentro do jovem rapaz.
Gildarts, observando tudo com atenção, soltou um suspiro baixo e, sem pressa, deu um leve sorriso.
— Vamos precisar de outra garrafa — declarou o homem, ciente de que muito ainda seria discutido naquela noite. — Precisarei te dar umas aulinhas sobre a arte da conquista, também.




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